Imponentes prédios de multinacionais, famílias inteiras de mendigos, os maiores centros culturais da cidade, construções bicentenárias totalmente degradadas. Mais um entre tantos paradoxos brasileiros, o Centro do Rio mistura decadência e riqueza em cada uma de suas milhares de esquinas, assim como os centros históricos de outras grandes cidades do mundo que perderam importância com a expansão das metrópoles e o conseqüentemente surgimento de outras áreas centrais. Mas o que aumenta a complexidade da situação do Centro do Rio é o fato de ser, ao mesmo tempo, centro histórico e financeiro da cidade e concentrar grande número de população de baixa renda com péssimas condições de moradia. Segundo a Prefeitura do Rio, a população residente no Centro encolheu 25% durante a década de 1990, principalmente devido ao fluxo migratório para outras zonas da cidade. Além disso, a condição de eixo articulador entre a Zona Sul, Zona Norte e Zona Oeste torna a região uma área de importância estratégica para o desenvolvimento de toda a cidade.

Cartão postal retirado do site diario.com
Perante esse quadro, as três esferas de governo deram início, no final da década de 1980, a vários projetos de revitalização de áreas estagnadas em relação a aspectos urbanísticos, ambientais e econômicos. Por seu importante papel na memória cultural e na representação de costumes da cidade, o Centro histórico recebe desde então um enfoque integral, que abrange aspectos estéticos, físicos, sociais e econômicos. Considerando como Centro histórico do Rio de Janeiro a região articulada entorno das duas principais avenidas, a Presidente Vargas, e a Avenida Rio Branco, algumas especificidades históricas tornam a revitalização ainda mais importante e difícil. Foi neste eixo que, durante mais de 200 anos, esteve concentrada a administração do Império e da República. Com a transferência da capital para Brasília, em 1960, muitos dos prédios que serviam como sede para ministérios, repartições e outras autarquias foram repassados para a administração municipal ou estadual, dificultando uma revitalização conjunta da área.
Embora o processo de valorização do patrimônio histórico e cultural do Centro do Rio tenha se iniciado há 20 anos, foi só a partir de 1993 que se implantou um amplo programa de recuperação dos espaços públicos, acompanhando outro fenômeno iniciado ainda no final da década de 1980: o surgimento de centros culturais dentro de prédios históricos. Administrados por órgãos federais, estaduais ou municipais, espaços como o Centro Cultural Banco do Brasil, o Paço Imperial e o Centro Cultural dos Correios se tornaram referências para todo o país e aumentaram bastante o potencial turístico da cidade. Ao longo da década de 1990, empresas privadas acompanharam a tendência e criaram elas também centros culturais, como o Centro Cultural da Light. A expansão do setor cultural capitaneada pelo setor público e privado incentivou também o surgimento de instituições não governamentais criadas por comerciantes e moradores, como a Feira do Lavradio e o Fim de Semana no Centro.
Cenário de construções que atravessaram os quase 450 anos da cidade, o Centro histórico do Rio entra o século XXI apresentando animadoras tentativas para conter a decadência iniciada com a transferência da capital, na década de 1960. De fato, obstáculos sociais, econômicos e burocráticos não faltam. Vários exemplos mostram, no entanto, que a força de vontade das milhares de pessoas que moram, trabalham e se divertem no Centro diariamente parece ser maior. Ao longo dos próximos quatro meses, o Flâneur Carioca servirá como palco para que algumas histórias desses personagens e lugares sejam contadas.