Flâneur Carioca

Histórias, personagens e lugares do Centro do Rio

Um Centro que tem histórias Novembro 29, 2007

Arquivado em: Cultura, Glaucia Marinho, História, Social — flaneurcarioca @ 1:26 pm

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Por Glaucia Marinho

O prédio da Rua Pedro Ernesto, 80 chama atenção pela grandeza e beleza, construído em 1887, em estilo neoclesiástico, foi inaugurado por Dom Pedro I para ser a primeira escola pública da América Latina a Escola José Bonifácio.

Em 1977, a Escola José Bonifácio passa a funcionar como Biblioteca Regional da Gamboa. Em 1983 foi criado o Centro Cultural José Bonifácio, com o objetivo de preservar e divulgar a história negra.

Hoje, ele, abriga uma biblioteca com cerca de 5 mil livros, sala de vídeo e espaço para concertos. Lá também funcionam a Galeria de Arte Heitor dos Prazeres, o Teatro Ruth de Souza e o espaço Cine Vídeo Grande Othelo, além disso, a Instituição oferece diversos cursos e oficinas abertos à comunidade, como: Dança Afro-brasileira, Capoeira Regional, Capoeira Angola, Ginástica, Karatê, Dança do Ventre, Artes Plásticas, Turismo Cultural na Zona Portuária, Street Dance, Disk Jockey, Cavaquinho, Ninjitsu, Danças Folclóricas, Teatro e Canto Coral.

O trabalho de resgate e preservação da cultura negra é muito importante naquele local. O Centro fica situado num pedaço da cidade conhecido como pequena África, que compreende os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo.

 

Correndo contra o tempo Novembro 29, 2007

Arquivado em: Guilherme Amado, Saúde, Social — flaneurcarioca @ 12:23 pm

Série HSE: 60 anos querendo ter vinte

Quase vinte anos após a criação do SUS, Servidores luta para colocá-lo na prática

Ainda é madrugada quando os dois ponteiros do relógio fixado no ambulatório do Hospital dos Servidores, pela primeira vez no dia, se encontram no número quatro. Alguns pacientes já haviam chegado, uns para consulta e outros para entrar na fila de marcação. Pouco mais de duas horas depois, os ponteiros voltam a se encontrar, agora no número seis, e a quantidade de pacientes em frente ao balcão de marcação de consultas cresceu bastante, misturando todo o tipo de pessoas. Pessoas que vieram marcar consulta para dali a dois, três, seis meses, dependendo da especialidade. Pessoas que vieram para se internar após uma espera que talvez tenha durado anos. Pessoas que chegam ao Servidores passando mal, à procura de um atendimento de emergência, e ficam indignados quando o hospital se recusa a atendê-los.

- Mas ele está com a perna quebrada – grita uma senhora ao ouvir da recepcionista que “as pessoas não entendem que o hospital não é feito para atender emergência”. Quem entende menos ainda é o rapaz de 24 anos com a perna quebrada, sentado em uma cadeira improvisada pelos parentes. Vinte minutos depois, quando ninguém mais lembra do rapaz da perna quebrada, novos gritos são ouvidos. A aposentada Maria da Conceição Jordão, desde o início da madrugada na fila de marcação para uma consulta de urologia, ouve da mesma recepcionista que o HSE não atende mais essa especialidade. Na fila, outros pacientes comentam que em todo o Rio só a Urologia do Souza Aguiar funciona. “Por que não me informaram quando eu cheguei, cinco horas atrás?” – pergunta indignada.

Na raiz dessa verdadeira Babel de vozes que não se entendem, está a falta de informação e de conhecimento sobre o SUS. Para entender o HSE, é fundamental entender o Sistema Único de Saúde, porque só assim é possível compreender a razão que as pessoas têm ao reclamar e entender também o processo de humanização em curso atualmente no hospital. Criado com a Constituição de 1988, o SUS é um projeto de universalização da saúde através de seis princípios básicos (veja quadro abaixo), mas, quase 20 anos depois de ter sido criado, ainda está no papel. Profissionais de saúde acreditam que, somente explicando para a população como o Sistema funciona, a sociedade pressionará os sucessivos governos a colocá-lo em prática. É exatamente isso que, entre avanços e retrocessos, o Servidores e outros hospitais brasileiros de referência vêm tentando fazer.

De acordo com a chefe do ambulatório do Hospital dos Servidores, a médica Mirian Thereza Cunha, o primeiro ponto que precisa ser compreendido é a hierarquia do SUS: “A população não sabe ainda que o SUS é hierarquizado e opera em níveis, como os postos de saúde, os hospitais de referência, as emergências”, explica. No caso dos Servidores, ele é um hospital geral que deveria atender somente pacientes encaminhados de outros níveis da rede de saúde. Por isso, diz ela, nunca houve um serviço de emergência no Servidores. “Isso gera muitos conflitos com a população, que se sente lesada. E gera também conflito com a ética profissional do médico, que é obrigado a atender qualquer pessoa em todas as circunstâncias”, completa.

Dentro do Servidores, o processo de humanização em curso pretende acabar justamente com esses conflitos. Em 2004, foi criado dentro do ambulatório do HSE o Núcleo de Acolhimento da Unidade de Pacientes Externos (NAUPE), que tem como objetivo receber o paciente encaminhado de outro nível da rede com humanidade. “Recebemos o paciente, fazemos o atendimento médico e explicamos o SUS para ele”, diz Mirian. Esta recepção, explica a médica, é feita por um profissional de saúde, seja ele um assistente social, um médico ou um enfermeiro.

Outro projeto do HSE dentro do contexto de humanização é a Ouvidoria, implantada no mesmo ano que o núcleo de acolhimento. “Realidade em toda empresa de saúde de grande porte, uma ouvidoria dentro de um hospital público é um desafio”, garante a ouvidora Maria Isabel de Abreu Monteiro. Aberta a críticas, elogios e sugestões de todos os pacientes e funcionários do hospital, a Ouvidoria precisa mediar as demandas da população com a realidade do Hospital. “Construímos, dia a dia, a noção de cidadania com cada pessoa que bate a nossa porta”, explica Maria Isabel.

Mas nem tudo são rosas nos belos jardins do Servidores. Apesar de todo trabalho de humanização que vem sendo realizado, nenhum dos princípios do SUS é totalmente colocado em prática. Mas o hospital não está sozinho nesse movimento de tentar mudar a saúde do país. A questão do destino dos recursos disponíveis para investimento na saúde é um deles. No último dia de outubro, foi regulamentada pela Câmara dos Deputados a Emenda Constitucional nº 29. “A regulamentação acaba com a dúvida sobre que é considerado gasto com ações e serviços de saúde. Permitirá que estados e os municípios que não destinam o percentual mínimo contribuam com mais R$ 6 bilhões para o SUS”, defendeu o Ministro da Saúde José Gomes Temporão, durante audiência pública no Senado, no dia seguinte à regulamentação. Fora isso, o Ministério, com grande visibilidade país afora desde a chegada de Temporão, vem tentando reformular uma série de outros pontos considerados importantes para que o SUS vire, de fato, realidade. Só o tempo, sempre ele, dirá se o Servidores voltará a se tornar um hospital de referência nacional. Desta vez, quem sabe, responsável pelo pioneirismo na humanização do sistema de saúde brasileiro.

PRINCÍPIOS DA CARTA DO SUS
1. Todo cidadão tem direito ao acesso ordenado e organizado aos
sistemas de saúde.
2. Todo cidadão tem direito a tratamento adequado e efetivo para seu
problema.
3. Todo cidadão tem direito ao atendimento humanizado, acolhedor
e livre de qualquer discriminação.
4. Todo cidadão tem direito a atendimento que respeite a sua pessoa,
seus valores e seus direitos.
5. Todo cidadão também tem responsabilidades para que seu
tratamento aconteça da forma adequada.
6. Todo cidadão tem direito ao comprometimento dos gestores
da saúde para que os princípios anteriores sejam cumpridos.

 

Zumbi vive!? Novembro 22, 2007

Arquivado em: Cultura, Glaucia Marinho, Política, Social — flaneurcarioca @ 1:35 pm

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por Glaucia Marinho

Terça-feira de sol no centro do Rio de Janeiro, nem parecia feriado pelo número de transeuntes na Avenida Presidente Vargas. Todos andavam em uma só direção, o monumento em homenagem a Zumbi dos Palmares. Um evento promovido pelo Governo do Estado no Dia da Consciência Negra animava o local. Organizada pelas Secretarias de Assistência Social e Direitos Humanos e de Cultura, a festa contava com a presença do movimento negro e de movimentos culturais. O evento teve início por volta das 7h30 com oferendas a Zumbi. A partir daí aconteceram apresentações de dança, música e culto religioso. Ao mesmo tempo, havia uma feira de artesanato.

A festividade contou com cerca de 800 pessoas. Depois de muita festa, protestos, chuva de pétalas de rosas e um apresentador que exaltava todos os feitos do Governo do Estado. Eram umas 16h, quando chega ao palanque quase todo secretariado do atual governo. Além do Governador Sérgio Cabral, também estavam presentes o professor Adair Rocha, representante do Ministério da Cultura no Rio, militantes do movimento negro e dois funcionários dos Correios.

No palanque havia umas 20 pessoas. Menos da metade eram negros. Benedita da Silva, secretária de Assistência Social e Direitos Humanos, abriu as falas oficiais, exaltou a importância do evento organizado pela primeira vez pelo governo do Estado, agradeceu a presença de todos, inclusive o coronel da polícia militar Ubiratan Ângelo, quando foi vaiada. O próximo a falar foi o Governador Sérgio Cabral, que falou sobre o conjunto de políticas do Estado para combater o racismo. Ouve-se nesse momento “Abaixo o caveirão!”. A retirada de circulação do blindado foi uma promessa de campanha do governador.

Uma mulher gritava: “peça desculpa às mulheres de favela”. O governador, em reportagem publicada na Folha de S. Paulo, defendeu o aborto e disse que a favela é uma fábrica de marginais. A mulher e toda sociedade ficaram sem as desculpas oficiais. Por fim, os funcionários dos correios apresentaram os selos comemorativos e os pronunciamentos acabaram, mas a festa continuou ao som de Djavan.

 

Sessenta anos querendo ter vinte Outubro 11, 2007

Arquivado em: Cultura, Guilherme Amado, História, Saúde, Social — flaneurcarioca @ 1:47 pm

Localizado na Saúde, o Hospital dos Servidores do Estado luta para não viver das glórias do passado

Fundado em 1947, o Hospital dos Servidores do Estado, no bairro da Saúde, chega aos seus sessenta anos na luta diária para voltar a ser um centro de referência internacional como foi até a década de 80. Melhor hospital da América Latina durante décadas, o Servidores foi um marco não só pela excelência médica, mas também pelas inovações que trouxe para a arquitetura hospitalar. A fama foi trazida também pelos ilustres notáveis que circularam pelos corredores de mármore e granito. Justamente por estar à frente de todas as outras unidades hospitalares do país, era comum que presidentes da República, ministros e personalidades artísticas se internassem ou fizessem exames nas moderníssimas instalações do hospital. De lá pra cá, muita coisa mudou.

Os presidentes e ministros preferem o Albert Einstein, em São Paulo, as personalidades sumiram quase todas, exceção para Dercy Gonçalves, que até hoje tem tratamento especial por lá. Essa mudança de preferência não foi à toa. Com a criação do Instituto Nacional de Assistência e Previdência Social (INAMPS), no início da década de 1990, o HSE passou a ser administrado pelo governo estadual. Os problemas começavam. Em 1992, com o repasse de verbas extremamente prejudicado pelo governo Collor, com funcionários extremamente desmotivados pelos planos econômicos do mesmo presidente, devendo milhões a fornecedores hospitalares, o hospital chegou a ser interditado pelo Conselho de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (CREMERJ). Faltavam medicamentos, alimentos e material hospitalar. No mesmo ano, o hospital fechou as portas para emergências, exames de ambulatório e internação. O HSE corria risco de vida.

Ao ser devolvido para o governo federal, passou por uma faxina administrativa e tem tido sucessivos gestores, médicos da instituição sempre, tentando reerguê-lo. “Hoje, o Servidores conta com uma Comissão de Planejamento e Informação, que pretende impor uma administração mais racional, capaz de empreender uma administração mais racional e transparente, mapeando metas e potencialidades de cada um dos nossos serviços.” – explica Geiza Araújo, assessora de imprensa da instituição. Alguns números do Hospital mostram seu tamanho e importância para a população de todo o estado. De acordo com a direção do HSE, chegam pessoas vindo de todas as cidades do Rio e, dependendo da complexidade do procedimento médico, de outros estados.

Basta, no entanto, cruzar os belos jardins da entrada durante uma manhã para se ver que ainda existe muito a melhorar para que volte a ser o centro de excelência de outrora. Como uma pessoa de sessenta anos, o HSE luta para não deixar a idade pesar e voltar à vitalidade de seus vinte e poucos anos, perdida durante a meia idade. Durante as próximas duas semanas, o Flâneur Carioca fará uma série especial sobre o Hospital, com histórias e personagens do Servidores e da luta diária que é enfrentar filas desde o início da madrugada para ser atendido no sistema público de saúde do Rio de Janeiro.


2006 em números para o HSE

Consultas ambulatoriais 301.737
Cirurgias 14.497
 

O bigode e as escrituras Setembro 28, 2007

Arquivado em: Guilherme Amado, Personagem, Social — flaneurcarioca @ 10:41 pm

Quem passar à noite entre a Rua da Quitanda e a Avenida Rio Branco vai se impressionar com o pouco mais de um metro e meio de um homem capaz de carregar durante toda a madrugada até cinco toneladas (seu recorde até hoje) de papel branco e papelão recolhidos naquele trecho. Carregando seu burrinho sem rabo, nome que os catadores dão aos carrinhos em que empilham quilos e quilos de papel para levar ao depósito em outro ponto do Centro, Seu Pedro esquece seus 60 anos e ziguezagueia pela escuridão da noite da cidade. “Todo mundo me conhece aqui. Ficam a noite toda chamando o velho pra cá, o velho pra lá”, diz Seu Pedro, com um sorriso de pouquíssimos dentes.


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Prestes a embarcar rumo à Paciência

Pedro Monteiro de Moraes nasceu em Ferreiros, cidade a 109 quilômetros de Recife, entre o litoral e a Zona da Mata nordestina. Trabalha desde os sete anos no canavial, mas conseguiu levar a escola até a 5ª série. Daí para frente, ficou difícil e nunca mais conseguiu estudar. A leitura, no entanto, está em dia há 12 anos, quando se tornou evangélico e passou a ler com grande afinco as escrituras sagradas. Três anos antes de começar a freqüentar os cultos, Seu Pedro tinha começado a trabalhar nas ruas do Centro catando papel. Era pedreiro desde 1968, quando chegou ao Rio, com 19 anos. De lá até se tornar catador, foi e voltou de Ferreiros algumas vezes. Quando estava desempregado por aqui, pegava o ônibus, enfrentava 48 horas de estrada e voltava para o canavial. Passava um tempo por lá e retornava, insistindo em tentar uma vida melhor no Rio. Numa dessas idas, conheceu dona Vilma, paraibana de Orvalho, sua mulher há mais de 30 anos. Tiveram cinco filhos, quatro meninas e um menino, pouco menos que os sete dos pais de Seu Pedro.

Quase tão longo quanto o casamento é o tempo que Seu Pedro trabalha como catador. Há 15 anos, um quarto de seus 60, ele foi demitido de uma construtora em que trabalhava. Estava começando a desenvolver uma doença que o acompanha desde então, a úlcera varicosa, que deixa os pés extremamente inchados e pode causar feridas enormes. A única forma de tratar a doença é, além de usar a medicação indicada, deixar as pernas levantadas permanentemente. Talvez seja por isso que já convive há tanto tempo com a doença. A construtora alegou na época que ele não conseguiria calçar sapatos, condição que consideravam básica para que alguém trabalhasse como pedreiro. Foi aí que um conhecido, bem mais velho que ele, catador de papel entre a Rua da Quitanda e a Avenida Rio Branco, o levou para trabalhar no Centro. Quando o amigo morreu, Seu Pedro assumiu seu ponto e lá trabalha até hoje. “Deus me apontou uma saída”, conta, animado.

Seu Pedro sempre foi uma pessoa muita religiosa. Católico desde criança, se tornou evangélico por sentir falta de ler a Bíblia, prática pouco incentivada no catolicismo. Sua primeira Igreja foi a Assembléia de Deus, mas saiu de lá há três anos quando exigiram que ele raspasse o bigode. “Se Deus me deu bigode, com certeza é porque ele me queria assim.” Foi para a “Deus é amor”, onde está até hoje, lendo as escrituras. E com o bigode intacto.

Vendo a rotina de Seu Pedro, parece faltar tempo para estudar a Bíblia. Chega todo dia às quatro, cinco da tarde no Centro. Vai até o depósito de papel, na Rua dos Inválidos, 96, troca de roupa, e se dirige ao ponto em que trabalha. Começa a recolher o papel e, até duas da manhã, já catou tudo que podia. Seu Pedro sempre é o primeiro a chegar na fila do depósito, que só abre às cinco e meia. Aproveita o vazio da rua, pega alguns papelões, monta uma barraquinha e dorme até a chegada de Seu Armindo, o dono do depósito. Depois de receber o dinheiro pelo que juntou durante toda a noite, Seu Pedro se veste, toma um café preto em algum bar do Centro e vai para a Central do Brasil. Já são quase sete horas quando embarca para Paciência, na Zona Oeste, onde mora. Chega em casa um pouco antes de nove, toma mais um café, e dorme o sono dos justos, que será interrompido por volta de meio-dia, quando acorda.

Quando Seu Pedro está pegando no sono após praticamente não dormir a noite toda, Seu Armindo, o dono do depósito, que dormiu a noite toda, está apenas começando seu dia de trabalho. Aos 42 anos, chegou ao Brasil com doze, vindo de Portugal, onde nasceu. Na falta de perspectivas, se tornou catador de papel. Conseguiu juntar dinheiro e comprou seu depósito anos atrás. Hoje, não cata mais, apenas compra a peso todo o papelão e papel branco recolhidos pelos catadores. Oferece, além do carrinho, um banheiro com chuveiro para que eles possam tomar banho antes de voltar para casa. Quando todos os catadores já venderam o que tinham, Seu Armindo vai para a Praia do Caju. É a sua vez de vender o que comprou. Sem informar por quanto vende as toneladas compradas, admite por quanto compra. Por um quilo de papel branco, paga 32 centavos. Já pelo quilo do papelão, paga um pouco mais, 35 centavos. De grão em grão, trinta anos depois de ter chegado, Seu Armindo conseguirá este ano mandar as duas filhas para Portugal. Vão estudar.

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O depósito de seu Armindo – rua dos Inválidos, 96

Seu Pedro pensa parecido. Quando perguntado se aconselharia um parente de Pernambuco a vir para o Rio de Janeiro tentar a vida, como ele fez há quase quarenta anos, fala em alto e bom som: “Cai fora que é roubada.” Seu sonho e o de Dona Vilma é voltar para Ferreiros, mas não querem ir sem um pé-de-meia. Está trabalhando para isso e, tem certeza, um dia consegue voltar. Para ele, o Brasil não tem jeito e Ferreiros, sendo uma cidade pequena, pelo menos é mais tranqüilo. “Dá pra conviver melhor com as dificuldades”. Ano passado, ano de eleição, Seu Pedro e vários catadores de papel do Centro foram convidados para viajar a Brasília e visitar o Palácio do Planalto, onde seriam recebidos pelo presidente Lula. Seu Pedro não quis ir. “Ele ia fazer alguma coisa pra melhorar minha vida?”. Há doze anos que não vota e nem se lembra dos nomes dos candidatos a presidente da última eleição em que votou, em 1994. Prefere se preocupar com assuntos que julga realmente interferirem em sua vida. Como as escrituras e seu bigode.

 

Novos Quilombos Transformam o Centro do Rio Setembro 20, 2007

Arquivado em: Glaucia Marinho, História, Política, Social — flaneurcarioca @ 1:53 pm

Por Glaucia Marinho

A luta organizada dos trabalhadores sem-teto desencadeou um processo de transformação urbana e social no centro do Rio de Janeiro desde que cem famílias sem-teto ocuparam, na noite de 6 de outubro de 2006, um prédio abandonado pela Companhia Docas do Rio de Janeiro há mais de 25 anos. Nascia na Av. Francisco Bicalho, 49, a ocupação Quilombo das Guerreiras.

Mesmo com todas as dificuldades impostas pela Companhia Docas, que proibia a entrada de água, comida e pessoas na primeira semana de ocupação, os moradores continuaram lutando. Com o apoio de Defensores Públicos ligados à área de direitos humanos e movimentos sociais conseguiram se manter no prédio.

A organização dos moradores garantiu o desenvolvimento da ocupação, foi instalada luz no prédio e construiram uma cozinha coletiva. Enquanto eles se organizavam e faziam melhorias no prédio, destruído pelo tempo de abandono. O presidente de Docas, Antônio Carlos Soares, entrou na justiça para pedir a reintegração de posse do prédio. E conseguiu. Os ocupantes perderam o prédio em todas as instancias judiciais. Contudo, em uma negociação entre Docas, ITERJ (Instituto de Terras e Cartografia do Rio de Janeiro), Ministério das Cidades e ocupantes, foi feito um acordo que concedeu aos ocupantes o direito de moradia por um período de um ano ou até que o Ministério das Cidades encontrasse uma solução para o problema de moradia destas famílias.

Essas mesmas famílias vinham de um processo de um ano e oito meses de reuniões e duas tentativas de ocupação. A primeira tentativa foi em 14 de novembro de 2005, num prédio do INSS, cedido a Justiça Federal, localizado na Alcindo Guanabara, atrás da Câmara Municipal. O prédio hoje está vazio. O segundo prédio foi ocupado em 2 de julho do ano seguinte, por volta da meia-noite, na Rua Estrela, no Rio Comprido. O prédio pertence ao advogado Paschoal Scofano. Por volta das 17 horas daquele dia, a justiça já tinha dado parecer negativo à ocupação. O ITERJ foi ao local, cadastrou todos os ocupantes e prometeu uma solução imediata. Não foi isso que aconteceu.

Tomando como exemplos ocupações como Chiquinha Gonzaga, que desde de 23 de julho de 2004 ocupam um prédio do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) abandonado há 20 anos, e a Ocupação Zumbi dos Palmares, que em 25 de abril de 2007 completou dois anos, os sem-tetos partiram para ação.

Dia 6 de outubro, a ocupação de Docas faz um ano. Ainda sem água encanada, mas com vários projetos e realizações. Já conta com um preparatório para concursos, aulas de teatro e uma cooperativa de chinelos. E sem a nenhuma resposta do Governo Federal sobre sua situação, o acordo feito não foi assinado. Os moradores continuam vivendo com o descaso imposto pelo Governo.