Flâneur Carioca

Histórias, personagens e lugares do Centro do Rio

Zumbi vive!? Novembro 22, 2007

Arquivado em: Cultura, Glaucia Marinho, Política, Social — flaneurcarioca @ 1:35 pm

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por Glaucia Marinho

Terça-feira de sol no centro do Rio de Janeiro, nem parecia feriado pelo número de transeuntes na Avenida Presidente Vargas. Todos andavam em uma só direção, o monumento em homenagem a Zumbi dos Palmares. Um evento promovido pelo Governo do Estado no Dia da Consciência Negra animava o local. Organizada pelas Secretarias de Assistência Social e Direitos Humanos e de Cultura, a festa contava com a presença do movimento negro e de movimentos culturais. O evento teve início por volta das 7h30 com oferendas a Zumbi. A partir daí aconteceram apresentações de dança, música e culto religioso. Ao mesmo tempo, havia uma feira de artesanato.

A festividade contou com cerca de 800 pessoas. Depois de muita festa, protestos, chuva de pétalas de rosas e um apresentador que exaltava todos os feitos do Governo do Estado. Eram umas 16h, quando chega ao palanque quase todo secretariado do atual governo. Além do Governador Sérgio Cabral, também estavam presentes o professor Adair Rocha, representante do Ministério da Cultura no Rio, militantes do movimento negro e dois funcionários dos Correios.

No palanque havia umas 20 pessoas. Menos da metade eram negros. Benedita da Silva, secretária de Assistência Social e Direitos Humanos, abriu as falas oficiais, exaltou a importância do evento organizado pela primeira vez pelo governo do Estado, agradeceu a presença de todos, inclusive o coronel da polícia militar Ubiratan Ângelo, quando foi vaiada. O próximo a falar foi o Governador Sérgio Cabral, que falou sobre o conjunto de políticas do Estado para combater o racismo. Ouve-se nesse momento “Abaixo o caveirão!”. A retirada de circulação do blindado foi uma promessa de campanha do governador.

Uma mulher gritava: “peça desculpa às mulheres de favela”. O governador, em reportagem publicada na Folha de S. Paulo, defendeu o aborto e disse que a favela é uma fábrica de marginais. A mulher e toda sociedade ficaram sem as desculpas oficiais. Por fim, os funcionários dos correios apresentaram os selos comemorativos e os pronunciamentos acabaram, mas a festa continuou ao som de Djavan.

 

Novos Quilombos Transformam o Centro do Rio Setembro 20, 2007

Arquivado em: Glaucia Marinho, História, Política, Social — flaneurcarioca @ 1:53 pm

Por Glaucia Marinho

A luta organizada dos trabalhadores sem-teto desencadeou um processo de transformação urbana e social no centro do Rio de Janeiro desde que cem famílias sem-teto ocuparam, na noite de 6 de outubro de 2006, um prédio abandonado pela Companhia Docas do Rio de Janeiro há mais de 25 anos. Nascia na Av. Francisco Bicalho, 49, a ocupação Quilombo das Guerreiras.

Mesmo com todas as dificuldades impostas pela Companhia Docas, que proibia a entrada de água, comida e pessoas na primeira semana de ocupação, os moradores continuaram lutando. Com o apoio de Defensores Públicos ligados à área de direitos humanos e movimentos sociais conseguiram se manter no prédio.

A organização dos moradores garantiu o desenvolvimento da ocupação, foi instalada luz no prédio e construiram uma cozinha coletiva. Enquanto eles se organizavam e faziam melhorias no prédio, destruído pelo tempo de abandono. O presidente de Docas, Antônio Carlos Soares, entrou na justiça para pedir a reintegração de posse do prédio. E conseguiu. Os ocupantes perderam o prédio em todas as instancias judiciais. Contudo, em uma negociação entre Docas, ITERJ (Instituto de Terras e Cartografia do Rio de Janeiro), Ministério das Cidades e ocupantes, foi feito um acordo que concedeu aos ocupantes o direito de moradia por um período de um ano ou até que o Ministério das Cidades encontrasse uma solução para o problema de moradia destas famílias.

Essas mesmas famílias vinham de um processo de um ano e oito meses de reuniões e duas tentativas de ocupação. A primeira tentativa foi em 14 de novembro de 2005, num prédio do INSS, cedido a Justiça Federal, localizado na Alcindo Guanabara, atrás da Câmara Municipal. O prédio hoje está vazio. O segundo prédio foi ocupado em 2 de julho do ano seguinte, por volta da meia-noite, na Rua Estrela, no Rio Comprido. O prédio pertence ao advogado Paschoal Scofano. Por volta das 17 horas daquele dia, a justiça já tinha dado parecer negativo à ocupação. O ITERJ foi ao local, cadastrou todos os ocupantes e prometeu uma solução imediata. Não foi isso que aconteceu.

Tomando como exemplos ocupações como Chiquinha Gonzaga, que desde de 23 de julho de 2004 ocupam um prédio do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) abandonado há 20 anos, e a Ocupação Zumbi dos Palmares, que em 25 de abril de 2007 completou dois anos, os sem-tetos partiram para ação.

Dia 6 de outubro, a ocupação de Docas faz um ano. Ainda sem água encanada, mas com vários projetos e realizações. Já conta com um preparatório para concursos, aulas de teatro e uma cooperativa de chinelos. E sem a nenhuma resposta do Governo Federal sobre sua situação, o acordo feito não foi assinado. Os moradores continuam vivendo com o descaso imposto pelo Governo.

 

Só nós não mudamos Setembro 14, 2007

Arquivado em: Guilherme Amado, História, Política — flaneurcarioca @ 5:40 pm

Por Guilherme Amado

Sobre mim, já pisaram os mais variados pés. Pés importantíssimos, diga-se de passagem. Pés cheios de patriotismo, de esperança de mudanças. Pés fardados e fadados – não é porque sou uma pedra portuguesa que não posso trocadilhar. Por cima de mim, já passaram futuros presidentes. Vários deles também já me evitaram. Pelos meus cálculos, lá se vão não sei quantos anos, passaram bilhões de pés. Hoje em dia, só me tocam de leve, num passo apressado que mal dá pra sentir a pisada. Correm pra tudo que é lado e nem se preocupam com o que acontece no chão em que pisam. Antigamente, não. Isso aqui era uma animação só. Tinha passeata, gente empolgada, empolada. Tinha sangue. Tinha folia. Bom, hoje também tem folia. Graças a Deus. Se não, como disse um pé que pisava muito por aqui, ninguém agüenta esse rojão.

Sabe, ser pedra portuguesa da Cinelândia é uma tarefa inglória. Digo inglória porque não é todo dia que somos palco para espetáculos. Na verdade, passamos quase o ano todo nessa mesmice, pés pra lá, pés pra cá, num vai-e-vem entediante. Estava comentando dia desses com uma das minhas quatro vizinhas que o tédio tem aumentado de um tempo pra cá. Pudera. Tirando fevereiro e março, que a coisa ferve com o Cordão da Bola Preta, no resto do ano é só chatice. Mas não foi sempre assim, como lembrou a vizinha da frente durante nosso papo. Coisa de quinze, vinte anos atrás, se eu não me engano, foi uma das últimas vezes que isso aqui pegou fogo. Eram uns garotos, sempre eles, que me encheram com respingos de tinta verde e tinta amarela. Pediam a cabeça de um presidente. Mas ali já dava pra ver que a coisa tava mudando. Muitas de nós receberam, além dos respingos de tinta, respingos de cerveja. A rebeldia tinha virado festa. Tirar o presidente era, para muitos deles, uma grande brincadeira. Achei aquilo estranho, mas como sou uma pedra portuguesa progressista, relevei. Algumas amigas, mais caxias, ficaram indignadas. Estão profanando um chão em que já pisaram cavalos getulistas, a portuguesinha que fica perto do obelisco gritou na época.

Na verdade, cá entre nós, essas pedras estão ficando velhas. Reclamonas. Pra mim, são tempos diferentes. As coisas mudam. É claro que não há a mesma animação de outros tempos – daí que vem o tédio, como eu disse –, mas não dá pra achar que, só porque nós somos as mesmas, os pés que pisam na gente também vão ser. As pedras portuguesas não mudam, já os pés que as pisam, sim, já dizia uma sábia que foi removida na última reforma da frente do Municipal. Essa pedra, aliás, era rica de histórias. Ela era uma dessas que estava por aqui desde 1905, no tempo do Pereira Passos, quando as primeiras de nós foram trazidas, na construção da Avenida Rio Branco, que, dizia ela, se chamava Avenida Central. Estava aqui quando o Getúlio chegou, foi pisada durante os primeiros grandes desfiles da independência, durante o tal do Estado Novo. Lembrava que era impressionante o carisma do gaúcho. Anos depois, a pedra sábia contava, lágrimas e mais lágrimas foram derrubadas sobre ela, quando ele se matou.

Por falar em derrubada, eu testemunhei uma outra derrubada assustadora, não de lágrimas, mas de um presidente. Não presenciei, é claro, mas ouvi. E também sofri com o que veio depois. Mas foi, talvez, a época mais empolgante. Para nós, pedras portuguesas, é bom dizer. O primeiro grande ato cívico da minha lusitana vida foi quando cem mil pessoas se reuniram para exigir, entre outras coisas, que os presos políticos do regime militar fossem soltos. Aquele dia foi inesquecível. O povo cantava, gritava, vibrava com a possibilidade de acabar com a terrível ditadura que já há quatro anos amedrontava até as mais conservadoras das pedras. Liberdade, liberdade, todas gritávamos em coro. Naquele dia, a polícia não veio com tudo. Tinha ido alguns dias antes, quando, lá pros lados do restaurante Calabouço, um estudante foi morto. As pedras portuguesas do lugar ficaram tão traumatizadas que preferiram se calar. Não viram, não ouviram, não iam ser burras de falar. A mordaça daquela época era tamanha que até nós tínhamos medo.

O medo demorou a passar. Só lá pra meados dos anos 80 a coisa começou a mudar. E aí foi lindo, como ouvi o Caetano dizer um dia que pisou bem em cima de mim. Segundo as nossas contas, foram bem um milhão de pés, ou quinhentas mil pessoas, para ser mais específica. Queriam votar, queriam ter o direito de mandar em seus próprios destinos. Nós, pedras portuguesas, apoiávamos as Diretas Já sem titubear. Estávamos cansadas de tanto sangue brigando com o nosso preto e branco. Durante os comícios, vinha muita gente boa pra cá. Ah, eram tempos felizes. Acho que tínhamos mais esperanças. Bom, talvez estivéssemos iludidas. Mas, se era ilusão, era uma ilusão boa, isso era.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Vieram aqueles caras pintadas, como eu disse e, depois, a coisa diminuiu bastante. Uns dois anos atrás, umas pessoas queriam tirar o presidente que pareceu um dia com um sapo barbudo. Não conseguiram colocar nem 600 pés, 300 pessoas. Isso aqui também fica cheio volta e meia de professores, policiais, médicos e vários outros profissionais que vêm reivindicar. Reivindicam tudo e, na maioria das vezes, não conseguem nada. Quem também não consegue nada, pelo menos a curto prazo, são as pessoas que nos enchem de lágrimas quando vêm pedir paz. Dessa vez, as lágrimas não são pelo presidente morto, mas pelos familiares, pelos amigos, pelos vizinhos mortos no asfalto selvagem, como disse o Nelson Rodrigues uma vez. Mas eu acho que hoje em dia essas pessoas são bem menos ouvidas aqui. Uma prima minha que é pedra portuguesa lá em Copacabana disse que, quando as pessoas se juntam por lá para pedir paz, menos violência, e esse monte de coisa que todos queremos, enche de câmera de televisão e de personalidade. Por aqui, acho que mal seriam ouvidos. Bom, talvez seja pessimismo meu. Mas nada que se compare a 1968, 1984, 1992. É, meus amigos, até para nós, pedras portuguesas, é estranho envelhecer e acompanhar tantas transformações. A Cinelândia mudou. O Rio mudou. O Brasil mudou. Parece que só nós, pedras portuguesas, como dizia a pedra sábia, não mudamos.

 

Dom João pelas ruas do centro Setembro 13, 2007

Arquivado em: Cultura, Glaucia Marinho, História, Política — flaneurcarioca @ 1:43 pm

Por Glaucia Marinho

Terça-feira chuvosa no centro do Rio de Janeiro. Duas horas da tarde de um dia comum. Pedestres passavam apressadamente. Outros assistiam assustados àquela cena. Os mais ousados se atreviam a gritar: “Viva o príncipe regente!”. Dom João VI caminhava pela ruas do centro, contando suas feitorias. O que construiu, o que destruiu, e quem escravizou. Seus súditos os seguiam sem titubear, contemplando a História que, segundo os historiadores, não serve para explicar o passado, mas justificar o presente.


O eterno beija-mão
O beija-mão, hábito que a realeza enraizou na cultura brasileira

Às 13 horas deste dia 28 de agosto tiveram início as comemorações (não-oficiais) do bicentenário da chegada da família real ao Brasil. O historiador Milton Teixeira encarnou Dom João VI e refez o trajetória da família real ao chegar em São Sebastião do Rio de Janeiro. Dom João, dois padres, a Guarda Real da Polícia e alguns súditos (jornalistas, historiadoras, estudantes, entre outros) se encontraram no Centro Cultural da Marinha, seguiram até a Casa de Comércio, hoje conhecida como Casa França-Brasil, adentraram um dos maiores empreendimentos da Família Real, a primeira agência do Banco do Brasil, que agora abriga um centro cultural.

A multidão acompanhava Dom João, que seguiu em direção a antiga catedral, situada na Rua do Rosário. Dom João contou o motivo da transferência do lugar da catedral da Igreja do Rosário para a de Nossa Senhora do Carmo. A capela de Nossa Senhora do Carmo ficava mais próxima da casa da alteza real. Dali, retomou o caminho da Catedral, a antiga Sé, que está sendo restaurada para o aniversário do bicentenário da chegada da família real no Brasil.


O assédio da imprensa
A imprensa não dá descanso ao monarca

O convite ao historiador Milton Teixeira de refazer os passos de Dom João partiu da Associação de Amigos da Antiga Sé como contribuição inicial para a festa dos duzentos anos. A partir de 8 de março de 2008, a igreja estará de portas abertas para os festejos. O passeio acabou com a chegada do príncipe regente à casa oficial, o Paço. Em meios aos gritos de “Viva o príncipe regente”, dessa vez outra coisa chamava atenção. Eram os gritos dos grevistas do estado, ao lado na Assembléia Legislativa, trazendo de volta os problemas do ano de 2007.

Sempre auto-referente
No Paço Imperial, apontando para sua própria imagem

Ao longo desse ano, esse blog vai publicar várias matérias relacionadas ao centro do Rio, tendo a chegada da família real como pano de fundo.


Acenando
Quem é rei nunca perde sua majestade: Dom João acena do alto do Paço

Com o coronel da Polãia
Com o coronel da Polícia, instituição criada por ele mesmo