Flâneur Carioca

Histórias, personagens e lugares do Centro do Rio

Um Centro que tem histórias Novembro 29, 2007

Arquivado em: Cultura, Glaucia Marinho, História, Social — flaneurcarioca @ 1:26 pm

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Por Glaucia Marinho

O prédio da Rua Pedro Ernesto, 80 chama atenção pela grandeza e beleza, construído em 1887, em estilo neoclesiástico, foi inaugurado por Dom Pedro I para ser a primeira escola pública da América Latina a Escola José Bonifácio.

Em 1977, a Escola José Bonifácio passa a funcionar como Biblioteca Regional da Gamboa. Em 1983 foi criado o Centro Cultural José Bonifácio, com o objetivo de preservar e divulgar a história negra.

Hoje, ele, abriga uma biblioteca com cerca de 5 mil livros, sala de vídeo e espaço para concertos. Lá também funcionam a Galeria de Arte Heitor dos Prazeres, o Teatro Ruth de Souza e o espaço Cine Vídeo Grande Othelo, além disso, a Instituição oferece diversos cursos e oficinas abertos à comunidade, como: Dança Afro-brasileira, Capoeira Regional, Capoeira Angola, Ginástica, Karatê, Dança do Ventre, Artes Plásticas, Turismo Cultural na Zona Portuária, Street Dance, Disk Jockey, Cavaquinho, Ninjitsu, Danças Folclóricas, Teatro e Canto Coral.

O trabalho de resgate e preservação da cultura negra é muito importante naquele local. O Centro fica situado num pedaço da cidade conhecido como pequena África, que compreende os bairros da Saúde, Gamboa e Santo Cristo.

 

Pequena África Novembro 29, 2007

Arquivado em: Cultura, Glaucia Marinho, História — flaneurcarioca @ 1:09 pm

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por Glaucia Marinho

Num lugar que mais parece uma cidade histórica de Minas, com escadarias, morros, casas antigas e pracinha. Uma comunidade de remanescentes de quilombo luta para manter sua história, suas tradições, seu lugar. Tudo isso poderia parecer muito comum se não estivesse acontecendo no centro do Rio. A Pedra do Sal fica no bairro da Saúde, periferia do centro, oficialmente, limitada entre a Praça Mauá e a Barão de Tefé, abrangendo o Morro da Conceição e Valongo. Ela é considerada um monumento histórico e religioso da cidade, foi tombado em 1984, pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC).

Tudo começou em, 1608, com a chegada de um grupo de baianos a procura de trabalho como estivadores, instalaram-se no Bairro da Saúde, e logo, transformaram a região em um pólo de referência da cultura negra. Um dos pontos era a casa do candomblé de João Alabá. O terreiro era frequüentado por tias Ciata, Bibiana, Mônica, Perciliana entre outras que fizeram do lugar um dos principais núcleos de organização e influência sobre a comunidade negra. As tias foram responsáveis pela manutenção desta cultura. Entre elas, temos Tia Ciata, famosa por sua casa ser ponto de encontro para desenvolveram a nova música, o samba. Na época, o samba, capoeira eram perseguidos pela polícia.

Os negros da pedra mantinham contato estreito com os negros vindo da África, na segunda metade do século XVIII, o Rio se torna um importante porto negreiro, quando o transito se intensificava com a necessidade de mão de obra escrava acentuada pela descoberta das minas.

A Pedra a Sal, ao longo do tempo foi “protagonista” de manifestações culturais e artísticas na cidade. Deu origem ao Angu do Gomes, o bloco carnavalesco de Ipanema e o Escravos da Mauá.

Mas não há trégua na batalha do povo negro. Depois de quase cem anos de abolição da escravatura, liberdade de culto, fim de perseguição aos capoeiras e sambistas. A luta agora é contra a Igreja Católica. Os remanescentes do quilombo lutam por 9 hectares de terra ao redor da Pedra do Sal. O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) está analisando o pedido feito para demarcar o Quilombo da Pedra do Sal.

A Ordem Terceira de São Francisco da Penitência apresenta documentos da época do Império para provar ser a dona da terra. Segundo ela, o terreno foi herança do padre Francisco da Motta, em 1704. E em 1821, um alvará do príncipe regente D. Pedro 1º concedeu outros terrenos à beira-mar.

Dia, 2 de dezembro, é dia internacional do samba. A data vai ser comemorada com festa na Pedra. O reconhecimento do samba como patrimônio brasileiro é também o reconhecimento da importância daquele local para a construção da identidade e história Brasileira.

 

Os urubus-malandros ao longo da história Novembro 29, 2007

Arquivado em: Cultura, Guilherme Amado, História — flaneurcarioca @ 12:25 pm

Centro era palco de jogos de capoeira, elemento de resistência e luta dos escravos

Onde hoje é a Rua Gonçalves Ledo, no Centro, um dia já foi a Rua São Jorge. Ali sem concentravam todo dias dezenas de pessoas que se organizavam em uma grande roda. Éramos urubus-malandros, forma como eram chamados os capoeiristas experientes e astutos. Criada no Brasil, a capoeira vem sendo reconhecida pelo Ministério da Cultura como um patrimônio cultural brasileiro. A consagração de Mestre Bimba, referência nacional no jogo, em 2003, com o recebimento da Ordem do Mérito Cultural das mãos do presidente Lula em 2003, mostrou isso. A trajetória histórica da capoeira, e, especificamente da capoeira carioca, explica as razões desse reconhecimento. Foi realmente um movimento de resistência cultural e política, embora hoje estudos mostrem que a força dos capoeiristas também foi emprestada para senhores e políticos da Corte.

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Mercado no Rio de Janeiro do final do século XIX: os trabalhadores da cidade tinham na capoeira um elemento de rebeldia

A partir da segunda metade do século XIX, a capoeira se tornou uma marca de tradição da população trabalhadora urbana e rebelde na maior cidade do Império brasileiro, que reunia escravos e livres, brasileiros e imigrantes, jovens e adultos, negros e brancos. Na verdade, o que os unia de verdade era o fato de pertencerem, todos eles, ao último andar da pirâmide social. E eram justamente eles que protagonizavam os “jogos de capoeira”, forma como os policiais se referiam às agressivas lutas entre portadores de navalhas e hábeis praticantes da capoeira. Apesar da fama, o estilo carioca perdeu espaço ao longo do século XX, principalmente por dois motivos. Primeiro, porque entrou em cena a versão baiana, dominada pelos mestres Bimba e Pastinha. Depois, porque o primeiro chefe da polícia da cidade na República, Sampaio Ferraz, a reprimiu com fúria e vigor. E isso também teve um motivo.

Historicamente, na escravidão urbana, a capoeira teve o papel de forjar novas identidades locais entre os escravos. Em artigo para a finada revista Nossa História, Carlos Eugênio Líbano, professor de História Brasileira da Universidade Federal da Bahia (UFBA), disse que documentos históricos brasileiros são insistentes em mostrar a capoeira como fenômeno urbano da cultura escrava. “Podemos afirmar ainda hipoteticamente que o nascimento da capoeira se deu nas primeiras grandes cidades do país, Salvador e Rio de Janeiro, ambiente propício, a partir de 1700”, explica o professor. A polêmica se a capoeira trata-se de um jogo ou uma luta é irrelevante, garante Carlos Eugênio, já que na África, especialmente entre os povos bantos (grande grupo lingüístico que domina a África do sul, que compôs grande parte do quadro de escravos trazidos para o Brasil), a luta sempre tem características de dança. “O que a capoeira moderna faz é juntar os dois” – completa.

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Tipos sociais da capoeira do século XIX: negros, mulatos, crianças de rua e imigrantes pobres

Ao se debruçarem sobre o estudo da capoeira carioca, historiadores a identificavam como um sinal de resistência das camadas populares frente ao poder das elites. No entanto, ao mesmo tempo que enfrentava a ordem policial e a escravidão, os capoeiristas participavam ativamente das lutas políticas dentro dos grupos dominantes, como capangas de senhores da Corte. Relatos Históricos, como os narrados por Plácido de Abreu em seu clássico Os capoeiras, de 1886, dizem que alguns chegavam até a incorporar termos e trejeitos do vocabulário de juízes e políticos da época.

A transformação da capoeira carioca começou com o fim do tráfico negreiro, em 1850. Os escravos africanos iam, aos poucos, sumindo das cidades, pois muitos iam para as fazendas de café, dessa vez por conta do tráfico interno. O ano-chave para a mudança definitiva em sua história foi, porém, com a Guerra do Paraguai (1865-1870). Jogados aos milhares no campo de batalha, os cariocas ganharam o respeito da oficialidade por serem imbatíveis na luta corpo-a-corpo. Voltaram consagrados. A capoeira entrava definitivamente na agenda política da Corte Imperial do Rio de Janeiro, com o entusiasmo da elite conservadora pelo poder marcial daquela gente.

E foi aquela gente que entrou nas disputas eleitorais entre liberais e conservadores da época. Nascia um ódio que duraria muitos anos entre capoeiristas e republicanos. A repressão capitaneada pelo chefe de polícia Sampaio Ferraz deixaria a capoeira do Rio de Janeiro entrar no limbo. Mas se entrou no limbo político, já estava eternizado, no entanto, no imaginário cultural. Ficaram célebres a irreverência, a ousadia e a rapidez dos capoeiristas. Era uma força cultural e simbólica da marginália, que desafiava a elite e suas propostas modernizadoras.

Hoje, a capoeira vive um momento muito positivo. Desde 2003, o Ministério da Cultura a reconheceu como um elemento importante da cultura brasileira e criou ações de preservação cultural e difusão da capoeira no Brasil e no mundo. No contexto interno, quem trabalha são os pontos de cultura, em diferentes regiões do país, com turmas de capoeira abertas há quatro anos. Internacionalmente, a capoeira é associada como mais um valor cultural da marca Brasil, que Cultura e Relações Exteriores trabalham mundo afora. No ano do Brasil na França, em 2005, a capoeira mereceu exposição, debates e aulas práticas em plena Paris. Os capoeiristas, esses urubus-malandros, merecem.

 

Sessenta anos querendo ter vinte Outubro 11, 2007

Arquivado em: Cultura, Guilherme Amado, História, Saúde, Social — flaneurcarioca @ 1:47 pm

Localizado na Saúde, o Hospital dos Servidores do Estado luta para não viver das glórias do passado

Fundado em 1947, o Hospital dos Servidores do Estado, no bairro da Saúde, chega aos seus sessenta anos na luta diária para voltar a ser um centro de referência internacional como foi até a década de 80. Melhor hospital da América Latina durante décadas, o Servidores foi um marco não só pela excelência médica, mas também pelas inovações que trouxe para a arquitetura hospitalar. A fama foi trazida também pelos ilustres notáveis que circularam pelos corredores de mármore e granito. Justamente por estar à frente de todas as outras unidades hospitalares do país, era comum que presidentes da República, ministros e personalidades artísticas se internassem ou fizessem exames nas moderníssimas instalações do hospital. De lá pra cá, muita coisa mudou.

Os presidentes e ministros preferem o Albert Einstein, em São Paulo, as personalidades sumiram quase todas, exceção para Dercy Gonçalves, que até hoje tem tratamento especial por lá. Essa mudança de preferência não foi à toa. Com a criação do Instituto Nacional de Assistência e Previdência Social (INAMPS), no início da década de 1990, o HSE passou a ser administrado pelo governo estadual. Os problemas começavam. Em 1992, com o repasse de verbas extremamente prejudicado pelo governo Collor, com funcionários extremamente desmotivados pelos planos econômicos do mesmo presidente, devendo milhões a fornecedores hospitalares, o hospital chegou a ser interditado pelo Conselho de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (CREMERJ). Faltavam medicamentos, alimentos e material hospitalar. No mesmo ano, o hospital fechou as portas para emergências, exames de ambulatório e internação. O HSE corria risco de vida.

Ao ser devolvido para o governo federal, passou por uma faxina administrativa e tem tido sucessivos gestores, médicos da instituição sempre, tentando reerguê-lo. “Hoje, o Servidores conta com uma Comissão de Planejamento e Informação, que pretende impor uma administração mais racional, capaz de empreender uma administração mais racional e transparente, mapeando metas e potencialidades de cada um dos nossos serviços.” – explica Geiza Araújo, assessora de imprensa da instituição. Alguns números do Hospital mostram seu tamanho e importância para a população de todo o estado. De acordo com a direção do HSE, chegam pessoas vindo de todas as cidades do Rio e, dependendo da complexidade do procedimento médico, de outros estados.

Basta, no entanto, cruzar os belos jardins da entrada durante uma manhã para se ver que ainda existe muito a melhorar para que volte a ser o centro de excelência de outrora. Como uma pessoa de sessenta anos, o HSE luta para não deixar a idade pesar e voltar à vitalidade de seus vinte e poucos anos, perdida durante a meia idade. Durante as próximas duas semanas, o Flâneur Carioca fará uma série especial sobre o Hospital, com histórias e personagens do Servidores e da luta diária que é enfrentar filas desde o início da madrugada para ser atendido no sistema público de saúde do Rio de Janeiro.


2006 em números para o HSE

Consultas ambulatoriais 301.737
Cirurgias 14.497
 

Novos Quilombos Transformam o Centro do Rio Setembro 20, 2007

Arquivado em: Glaucia Marinho, História, Política, Social — flaneurcarioca @ 1:53 pm

Por Glaucia Marinho

A luta organizada dos trabalhadores sem-teto desencadeou um processo de transformação urbana e social no centro do Rio de Janeiro desde que cem famílias sem-teto ocuparam, na noite de 6 de outubro de 2006, um prédio abandonado pela Companhia Docas do Rio de Janeiro há mais de 25 anos. Nascia na Av. Francisco Bicalho, 49, a ocupação Quilombo das Guerreiras.

Mesmo com todas as dificuldades impostas pela Companhia Docas, que proibia a entrada de água, comida e pessoas na primeira semana de ocupação, os moradores continuaram lutando. Com o apoio de Defensores Públicos ligados à área de direitos humanos e movimentos sociais conseguiram se manter no prédio.

A organização dos moradores garantiu o desenvolvimento da ocupação, foi instalada luz no prédio e construiram uma cozinha coletiva. Enquanto eles se organizavam e faziam melhorias no prédio, destruído pelo tempo de abandono. O presidente de Docas, Antônio Carlos Soares, entrou na justiça para pedir a reintegração de posse do prédio. E conseguiu. Os ocupantes perderam o prédio em todas as instancias judiciais. Contudo, em uma negociação entre Docas, ITERJ (Instituto de Terras e Cartografia do Rio de Janeiro), Ministério das Cidades e ocupantes, foi feito um acordo que concedeu aos ocupantes o direito de moradia por um período de um ano ou até que o Ministério das Cidades encontrasse uma solução para o problema de moradia destas famílias.

Essas mesmas famílias vinham de um processo de um ano e oito meses de reuniões e duas tentativas de ocupação. A primeira tentativa foi em 14 de novembro de 2005, num prédio do INSS, cedido a Justiça Federal, localizado na Alcindo Guanabara, atrás da Câmara Municipal. O prédio hoje está vazio. O segundo prédio foi ocupado em 2 de julho do ano seguinte, por volta da meia-noite, na Rua Estrela, no Rio Comprido. O prédio pertence ao advogado Paschoal Scofano. Por volta das 17 horas daquele dia, a justiça já tinha dado parecer negativo à ocupação. O ITERJ foi ao local, cadastrou todos os ocupantes e prometeu uma solução imediata. Não foi isso que aconteceu.

Tomando como exemplos ocupações como Chiquinha Gonzaga, que desde de 23 de julho de 2004 ocupam um prédio do INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) abandonado há 20 anos, e a Ocupação Zumbi dos Palmares, que em 25 de abril de 2007 completou dois anos, os sem-tetos partiram para ação.

Dia 6 de outubro, a ocupação de Docas faz um ano. Ainda sem água encanada, mas com vários projetos e realizações. Já conta com um preparatório para concursos, aulas de teatro e uma cooperativa de chinelos. E sem a nenhuma resposta do Governo Federal sobre sua situação, o acordo feito não foi assinado. Os moradores continuam vivendo com o descaso imposto pelo Governo.

 

Só nós não mudamos Setembro 14, 2007

Arquivado em: Guilherme Amado, História, Política — flaneurcarioca @ 5:40 pm

Por Guilherme Amado

Sobre mim, já pisaram os mais variados pés. Pés importantíssimos, diga-se de passagem. Pés cheios de patriotismo, de esperança de mudanças. Pés fardados e fadados – não é porque sou uma pedra portuguesa que não posso trocadilhar. Por cima de mim, já passaram futuros presidentes. Vários deles também já me evitaram. Pelos meus cálculos, lá se vão não sei quantos anos, passaram bilhões de pés. Hoje em dia, só me tocam de leve, num passo apressado que mal dá pra sentir a pisada. Correm pra tudo que é lado e nem se preocupam com o que acontece no chão em que pisam. Antigamente, não. Isso aqui era uma animação só. Tinha passeata, gente empolgada, empolada. Tinha sangue. Tinha folia. Bom, hoje também tem folia. Graças a Deus. Se não, como disse um pé que pisava muito por aqui, ninguém agüenta esse rojão.

Sabe, ser pedra portuguesa da Cinelândia é uma tarefa inglória. Digo inglória porque não é todo dia que somos palco para espetáculos. Na verdade, passamos quase o ano todo nessa mesmice, pés pra lá, pés pra cá, num vai-e-vem entediante. Estava comentando dia desses com uma das minhas quatro vizinhas que o tédio tem aumentado de um tempo pra cá. Pudera. Tirando fevereiro e março, que a coisa ferve com o Cordão da Bola Preta, no resto do ano é só chatice. Mas não foi sempre assim, como lembrou a vizinha da frente durante nosso papo. Coisa de quinze, vinte anos atrás, se eu não me engano, foi uma das últimas vezes que isso aqui pegou fogo. Eram uns garotos, sempre eles, que me encheram com respingos de tinta verde e tinta amarela. Pediam a cabeça de um presidente. Mas ali já dava pra ver que a coisa tava mudando. Muitas de nós receberam, além dos respingos de tinta, respingos de cerveja. A rebeldia tinha virado festa. Tirar o presidente era, para muitos deles, uma grande brincadeira. Achei aquilo estranho, mas como sou uma pedra portuguesa progressista, relevei. Algumas amigas, mais caxias, ficaram indignadas. Estão profanando um chão em que já pisaram cavalos getulistas, a portuguesinha que fica perto do obelisco gritou na época.

Na verdade, cá entre nós, essas pedras estão ficando velhas. Reclamonas. Pra mim, são tempos diferentes. As coisas mudam. É claro que não há a mesma animação de outros tempos – daí que vem o tédio, como eu disse –, mas não dá pra achar que, só porque nós somos as mesmas, os pés que pisam na gente também vão ser. As pedras portuguesas não mudam, já os pés que as pisam, sim, já dizia uma sábia que foi removida na última reforma da frente do Municipal. Essa pedra, aliás, era rica de histórias. Ela era uma dessas que estava por aqui desde 1905, no tempo do Pereira Passos, quando as primeiras de nós foram trazidas, na construção da Avenida Rio Branco, que, dizia ela, se chamava Avenida Central. Estava aqui quando o Getúlio chegou, foi pisada durante os primeiros grandes desfiles da independência, durante o tal do Estado Novo. Lembrava que era impressionante o carisma do gaúcho. Anos depois, a pedra sábia contava, lágrimas e mais lágrimas foram derrubadas sobre ela, quando ele se matou.

Por falar em derrubada, eu testemunhei uma outra derrubada assustadora, não de lágrimas, mas de um presidente. Não presenciei, é claro, mas ouvi. E também sofri com o que veio depois. Mas foi, talvez, a época mais empolgante. Para nós, pedras portuguesas, é bom dizer. O primeiro grande ato cívico da minha lusitana vida foi quando cem mil pessoas se reuniram para exigir, entre outras coisas, que os presos políticos do regime militar fossem soltos. Aquele dia foi inesquecível. O povo cantava, gritava, vibrava com a possibilidade de acabar com a terrível ditadura que já há quatro anos amedrontava até as mais conservadoras das pedras. Liberdade, liberdade, todas gritávamos em coro. Naquele dia, a polícia não veio com tudo. Tinha ido alguns dias antes, quando, lá pros lados do restaurante Calabouço, um estudante foi morto. As pedras portuguesas do lugar ficaram tão traumatizadas que preferiram se calar. Não viram, não ouviram, não iam ser burras de falar. A mordaça daquela época era tamanha que até nós tínhamos medo.

O medo demorou a passar. Só lá pra meados dos anos 80 a coisa começou a mudar. E aí foi lindo, como ouvi o Caetano dizer um dia que pisou bem em cima de mim. Segundo as nossas contas, foram bem um milhão de pés, ou quinhentas mil pessoas, para ser mais específica. Queriam votar, queriam ter o direito de mandar em seus próprios destinos. Nós, pedras portuguesas, apoiávamos as Diretas Já sem titubear. Estávamos cansadas de tanto sangue brigando com o nosso preto e branco. Durante os comícios, vinha muita gente boa pra cá. Ah, eram tempos felizes. Acho que tínhamos mais esperanças. Bom, talvez estivéssemos iludidas. Mas, se era ilusão, era uma ilusão boa, isso era.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Vieram aqueles caras pintadas, como eu disse e, depois, a coisa diminuiu bastante. Uns dois anos atrás, umas pessoas queriam tirar o presidente que pareceu um dia com um sapo barbudo. Não conseguiram colocar nem 600 pés, 300 pessoas. Isso aqui também fica cheio volta e meia de professores, policiais, médicos e vários outros profissionais que vêm reivindicar. Reivindicam tudo e, na maioria das vezes, não conseguem nada. Quem também não consegue nada, pelo menos a curto prazo, são as pessoas que nos enchem de lágrimas quando vêm pedir paz. Dessa vez, as lágrimas não são pelo presidente morto, mas pelos familiares, pelos amigos, pelos vizinhos mortos no asfalto selvagem, como disse o Nelson Rodrigues uma vez. Mas eu acho que hoje em dia essas pessoas são bem menos ouvidas aqui. Uma prima minha que é pedra portuguesa lá em Copacabana disse que, quando as pessoas se juntam por lá para pedir paz, menos violência, e esse monte de coisa que todos queremos, enche de câmera de televisão e de personalidade. Por aqui, acho que mal seriam ouvidos. Bom, talvez seja pessimismo meu. Mas nada que se compare a 1968, 1984, 1992. É, meus amigos, até para nós, pedras portuguesas, é estranho envelhecer e acompanhar tantas transformações. A Cinelândia mudou. O Rio mudou. O Brasil mudou. Parece que só nós, pedras portuguesas, como dizia a pedra sábia, não mudamos.

 

Podcast Flâneur Carioca – Restauração da Antiga Sé Setembro 14, 2007

Arquivado em: Cultura, Glaucia Marinho, Guilherme Amado, História, podcast — flaneurcarioca @ 5:39 pm

Maquete da Antiga Sé restaurada
Assim ficará a fachada da Antiga Sé após a restauração

Clique aqui para ouvir ou baixar o podcast do Flâneur Carioca, em que Daisy Ketzer, uma das organizadoras do evento, fala sobre a restauração da Antiga Sé, obra que será entregue dia 8 de março do ano que vem, dando início às comemorações da chegada da Família Real.

 

Podcast Flâneur Carioca – Dom João pelas ruas do Centro Setembro 14, 2007

Arquivado em: Glaucia Marinho, Guilherme Amado, História, podcast — flaneurcarioca @ 3:28 am

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Daisy Ketzer: “Dom João foi um estrategista”

Clique aqui para ouvir o podcast especial Dom João pelas ruas do Centro, com uma entrevista exclusiva com o gordo monarca, seguida por uma defesa apaixonadada de Dom João pela professora Daisy Ketzer, da Universidade Estácio de Sá.

 

Dom João pelas ruas do centro Setembro 13, 2007

Arquivado em: Cultura, Glaucia Marinho, História, Política — flaneurcarioca @ 1:43 pm

Por Glaucia Marinho

Terça-feira chuvosa no centro do Rio de Janeiro. Duas horas da tarde de um dia comum. Pedestres passavam apressadamente. Outros assistiam assustados àquela cena. Os mais ousados se atreviam a gritar: “Viva o príncipe regente!”. Dom João VI caminhava pela ruas do centro, contando suas feitorias. O que construiu, o que destruiu, e quem escravizou. Seus súditos os seguiam sem titubear, contemplando a História que, segundo os historiadores, não serve para explicar o passado, mas justificar o presente.


O eterno beija-mão
O beija-mão, hábito que a realeza enraizou na cultura brasileira

Às 13 horas deste dia 28 de agosto tiveram início as comemorações (não-oficiais) do bicentenário da chegada da família real ao Brasil. O historiador Milton Teixeira encarnou Dom João VI e refez o trajetória da família real ao chegar em São Sebastião do Rio de Janeiro. Dom João, dois padres, a Guarda Real da Polícia e alguns súditos (jornalistas, historiadoras, estudantes, entre outros) se encontraram no Centro Cultural da Marinha, seguiram até a Casa de Comércio, hoje conhecida como Casa França-Brasil, adentraram um dos maiores empreendimentos da Família Real, a primeira agência do Banco do Brasil, que agora abriga um centro cultural.

A multidão acompanhava Dom João, que seguiu em direção a antiga catedral, situada na Rua do Rosário. Dom João contou o motivo da transferência do lugar da catedral da Igreja do Rosário para a de Nossa Senhora do Carmo. A capela de Nossa Senhora do Carmo ficava mais próxima da casa da alteza real. Dali, retomou o caminho da Catedral, a antiga Sé, que está sendo restaurada para o aniversário do bicentenário da chegada da família real no Brasil.


O assédio da imprensa
A imprensa não dá descanso ao monarca

O convite ao historiador Milton Teixeira de refazer os passos de Dom João partiu da Associação de Amigos da Antiga Sé como contribuição inicial para a festa dos duzentos anos. A partir de 8 de março de 2008, a igreja estará de portas abertas para os festejos. O passeio acabou com a chegada do príncipe regente à casa oficial, o Paço. Em meios aos gritos de “Viva o príncipe regente”, dessa vez outra coisa chamava atenção. Eram os gritos dos grevistas do estado, ao lado na Assembléia Legislativa, trazendo de volta os problemas do ano de 2007.

Sempre auto-referente
No Paço Imperial, apontando para sua própria imagem

Ao longo desse ano, esse blog vai publicar várias matérias relacionadas ao centro do Rio, tendo a chegada da família real como pano de fundo.


Acenando
Quem é rei nunca perde sua majestade: Dom João acena do alto do Paço

Com o coronel da Polãia
Com o coronel da Polícia, instituição criada por ele mesmo