Flâneur Carioca

Histórias, personagens e lugares do Centro do Rio

Os urubus-malandros ao longo da história Novembro 29, 2007

Arquivado em: Cultura, Guilherme Amado, História — flaneurcarioca @ 12:25 pm

Centro era palco de jogos de capoeira, elemento de resistência e luta dos escravos

Onde hoje é a Rua Gonçalves Ledo, no Centro, um dia já foi a Rua São Jorge. Ali sem concentravam todo dias dezenas de pessoas que se organizavam em uma grande roda. Éramos urubus-malandros, forma como eram chamados os capoeiristas experientes e astutos. Criada no Brasil, a capoeira vem sendo reconhecida pelo Ministério da Cultura como um patrimônio cultural brasileiro. A consagração de Mestre Bimba, referência nacional no jogo, em 2003, com o recebimento da Ordem do Mérito Cultural das mãos do presidente Lula em 2003, mostrou isso. A trajetória histórica da capoeira, e, especificamente da capoeira carioca, explica as razões desse reconhecimento. Foi realmente um movimento de resistência cultural e política, embora hoje estudos mostrem que a força dos capoeiristas também foi emprestada para senhores e políticos da Corte.

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Mercado no Rio de Janeiro do final do século XIX: os trabalhadores da cidade tinham na capoeira um elemento de rebeldia

A partir da segunda metade do século XIX, a capoeira se tornou uma marca de tradição da população trabalhadora urbana e rebelde na maior cidade do Império brasileiro, que reunia escravos e livres, brasileiros e imigrantes, jovens e adultos, negros e brancos. Na verdade, o que os unia de verdade era o fato de pertencerem, todos eles, ao último andar da pirâmide social. E eram justamente eles que protagonizavam os “jogos de capoeira”, forma como os policiais se referiam às agressivas lutas entre portadores de navalhas e hábeis praticantes da capoeira. Apesar da fama, o estilo carioca perdeu espaço ao longo do século XX, principalmente por dois motivos. Primeiro, porque entrou em cena a versão baiana, dominada pelos mestres Bimba e Pastinha. Depois, porque o primeiro chefe da polícia da cidade na República, Sampaio Ferraz, a reprimiu com fúria e vigor. E isso também teve um motivo.

Historicamente, na escravidão urbana, a capoeira teve o papel de forjar novas identidades locais entre os escravos. Em artigo para a finada revista Nossa História, Carlos Eugênio Líbano, professor de História Brasileira da Universidade Federal da Bahia (UFBA), disse que documentos históricos brasileiros são insistentes em mostrar a capoeira como fenômeno urbano da cultura escrava. “Podemos afirmar ainda hipoteticamente que o nascimento da capoeira se deu nas primeiras grandes cidades do país, Salvador e Rio de Janeiro, ambiente propício, a partir de 1700”, explica o professor. A polêmica se a capoeira trata-se de um jogo ou uma luta é irrelevante, garante Carlos Eugênio, já que na África, especialmente entre os povos bantos (grande grupo lingüístico que domina a África do sul, que compôs grande parte do quadro de escravos trazidos para o Brasil), a luta sempre tem características de dança. “O que a capoeira moderna faz é juntar os dois” – completa.

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Tipos sociais da capoeira do século XIX: negros, mulatos, crianças de rua e imigrantes pobres

Ao se debruçarem sobre o estudo da capoeira carioca, historiadores a identificavam como um sinal de resistência das camadas populares frente ao poder das elites. No entanto, ao mesmo tempo que enfrentava a ordem policial e a escravidão, os capoeiristas participavam ativamente das lutas políticas dentro dos grupos dominantes, como capangas de senhores da Corte. Relatos Históricos, como os narrados por Plácido de Abreu em seu clássico Os capoeiras, de 1886, dizem que alguns chegavam até a incorporar termos e trejeitos do vocabulário de juízes e políticos da época.

A transformação da capoeira carioca começou com o fim do tráfico negreiro, em 1850. Os escravos africanos iam, aos poucos, sumindo das cidades, pois muitos iam para as fazendas de café, dessa vez por conta do tráfico interno. O ano-chave para a mudança definitiva em sua história foi, porém, com a Guerra do Paraguai (1865-1870). Jogados aos milhares no campo de batalha, os cariocas ganharam o respeito da oficialidade por serem imbatíveis na luta corpo-a-corpo. Voltaram consagrados. A capoeira entrava definitivamente na agenda política da Corte Imperial do Rio de Janeiro, com o entusiasmo da elite conservadora pelo poder marcial daquela gente.

E foi aquela gente que entrou nas disputas eleitorais entre liberais e conservadores da época. Nascia um ódio que duraria muitos anos entre capoeiristas e republicanos. A repressão capitaneada pelo chefe de polícia Sampaio Ferraz deixaria a capoeira do Rio de Janeiro entrar no limbo. Mas se entrou no limbo político, já estava eternizado, no entanto, no imaginário cultural. Ficaram célebres a irreverência, a ousadia e a rapidez dos capoeiristas. Era uma força cultural e simbólica da marginália, que desafiava a elite e suas propostas modernizadoras.

Hoje, a capoeira vive um momento muito positivo. Desde 2003, o Ministério da Cultura a reconheceu como um elemento importante da cultura brasileira e criou ações de preservação cultural e difusão da capoeira no Brasil e no mundo. No contexto interno, quem trabalha são os pontos de cultura, em diferentes regiões do país, com turmas de capoeira abertas há quatro anos. Internacionalmente, a capoeira é associada como mais um valor cultural da marca Brasil, que Cultura e Relações Exteriores trabalham mundo afora. No ano do Brasil na França, em 2005, a capoeira mereceu exposição, debates e aulas práticas em plena Paris. Os capoeiristas, esses urubus-malandros, merecem.

 

Correndo contra o tempo Novembro 29, 2007

Arquivado em: Guilherme Amado, Saúde, Social — flaneurcarioca @ 12:23 pm

Série HSE: 60 anos querendo ter vinte

Quase vinte anos após a criação do SUS, Servidores luta para colocá-lo na prática

Ainda é madrugada quando os dois ponteiros do relógio fixado no ambulatório do Hospital dos Servidores, pela primeira vez no dia, se encontram no número quatro. Alguns pacientes já haviam chegado, uns para consulta e outros para entrar na fila de marcação. Pouco mais de duas horas depois, os ponteiros voltam a se encontrar, agora no número seis, e a quantidade de pacientes em frente ao balcão de marcação de consultas cresceu bastante, misturando todo o tipo de pessoas. Pessoas que vieram marcar consulta para dali a dois, três, seis meses, dependendo da especialidade. Pessoas que vieram para se internar após uma espera que talvez tenha durado anos. Pessoas que chegam ao Servidores passando mal, à procura de um atendimento de emergência, e ficam indignados quando o hospital se recusa a atendê-los.

- Mas ele está com a perna quebrada – grita uma senhora ao ouvir da recepcionista que “as pessoas não entendem que o hospital não é feito para atender emergência”. Quem entende menos ainda é o rapaz de 24 anos com a perna quebrada, sentado em uma cadeira improvisada pelos parentes. Vinte minutos depois, quando ninguém mais lembra do rapaz da perna quebrada, novos gritos são ouvidos. A aposentada Maria da Conceição Jordão, desde o início da madrugada na fila de marcação para uma consulta de urologia, ouve da mesma recepcionista que o HSE não atende mais essa especialidade. Na fila, outros pacientes comentam que em todo o Rio só a Urologia do Souza Aguiar funciona. “Por que não me informaram quando eu cheguei, cinco horas atrás?” – pergunta indignada.

Na raiz dessa verdadeira Babel de vozes que não se entendem, está a falta de informação e de conhecimento sobre o SUS. Para entender o HSE, é fundamental entender o Sistema Único de Saúde, porque só assim é possível compreender a razão que as pessoas têm ao reclamar e entender também o processo de humanização em curso atualmente no hospital. Criado com a Constituição de 1988, o SUS é um projeto de universalização da saúde através de seis princípios básicos (veja quadro abaixo), mas, quase 20 anos depois de ter sido criado, ainda está no papel. Profissionais de saúde acreditam que, somente explicando para a população como o Sistema funciona, a sociedade pressionará os sucessivos governos a colocá-lo em prática. É exatamente isso que, entre avanços e retrocessos, o Servidores e outros hospitais brasileiros de referência vêm tentando fazer.

De acordo com a chefe do ambulatório do Hospital dos Servidores, a médica Mirian Thereza Cunha, o primeiro ponto que precisa ser compreendido é a hierarquia do SUS: “A população não sabe ainda que o SUS é hierarquizado e opera em níveis, como os postos de saúde, os hospitais de referência, as emergências”, explica. No caso dos Servidores, ele é um hospital geral que deveria atender somente pacientes encaminhados de outros níveis da rede de saúde. Por isso, diz ela, nunca houve um serviço de emergência no Servidores. “Isso gera muitos conflitos com a população, que se sente lesada. E gera também conflito com a ética profissional do médico, que é obrigado a atender qualquer pessoa em todas as circunstâncias”, completa.

Dentro do Servidores, o processo de humanização em curso pretende acabar justamente com esses conflitos. Em 2004, foi criado dentro do ambulatório do HSE o Núcleo de Acolhimento da Unidade de Pacientes Externos (NAUPE), que tem como objetivo receber o paciente encaminhado de outro nível da rede com humanidade. “Recebemos o paciente, fazemos o atendimento médico e explicamos o SUS para ele”, diz Mirian. Esta recepção, explica a médica, é feita por um profissional de saúde, seja ele um assistente social, um médico ou um enfermeiro.

Outro projeto do HSE dentro do contexto de humanização é a Ouvidoria, implantada no mesmo ano que o núcleo de acolhimento. “Realidade em toda empresa de saúde de grande porte, uma ouvidoria dentro de um hospital público é um desafio”, garante a ouvidora Maria Isabel de Abreu Monteiro. Aberta a críticas, elogios e sugestões de todos os pacientes e funcionários do hospital, a Ouvidoria precisa mediar as demandas da população com a realidade do Hospital. “Construímos, dia a dia, a noção de cidadania com cada pessoa que bate a nossa porta”, explica Maria Isabel.

Mas nem tudo são rosas nos belos jardins do Servidores. Apesar de todo trabalho de humanização que vem sendo realizado, nenhum dos princípios do SUS é totalmente colocado em prática. Mas o hospital não está sozinho nesse movimento de tentar mudar a saúde do país. A questão do destino dos recursos disponíveis para investimento na saúde é um deles. No último dia de outubro, foi regulamentada pela Câmara dos Deputados a Emenda Constitucional nº 29. “A regulamentação acaba com a dúvida sobre que é considerado gasto com ações e serviços de saúde. Permitirá que estados e os municípios que não destinam o percentual mínimo contribuam com mais R$ 6 bilhões para o SUS”, defendeu o Ministro da Saúde José Gomes Temporão, durante audiência pública no Senado, no dia seguinte à regulamentação. Fora isso, o Ministério, com grande visibilidade país afora desde a chegada de Temporão, vem tentando reformular uma série de outros pontos considerados importantes para que o SUS vire, de fato, realidade. Só o tempo, sempre ele, dirá se o Servidores voltará a se tornar um hospital de referência nacional. Desta vez, quem sabe, responsável pelo pioneirismo na humanização do sistema de saúde brasileiro.

PRINCÍPIOS DA CARTA DO SUS
1. Todo cidadão tem direito ao acesso ordenado e organizado aos
sistemas de saúde.
2. Todo cidadão tem direito a tratamento adequado e efetivo para seu
problema.
3. Todo cidadão tem direito ao atendimento humanizado, acolhedor
e livre de qualquer discriminação.
4. Todo cidadão tem direito a atendimento que respeite a sua pessoa,
seus valores e seus direitos.
5. Todo cidadão também tem responsabilidades para que seu
tratamento aconteça da forma adequada.
6. Todo cidadão tem direito ao comprometimento dos gestores
da saúde para que os princípios anteriores sejam cumpridos.

 

Sessenta anos querendo ter vinte Outubro 11, 2007

Arquivado em: Cultura, Guilherme Amado, História, Saúde, Social — flaneurcarioca @ 1:47 pm

Localizado na Saúde, o Hospital dos Servidores do Estado luta para não viver das glórias do passado

Fundado em 1947, o Hospital dos Servidores do Estado, no bairro da Saúde, chega aos seus sessenta anos na luta diária para voltar a ser um centro de referência internacional como foi até a década de 80. Melhor hospital da América Latina durante décadas, o Servidores foi um marco não só pela excelência médica, mas também pelas inovações que trouxe para a arquitetura hospitalar. A fama foi trazida também pelos ilustres notáveis que circularam pelos corredores de mármore e granito. Justamente por estar à frente de todas as outras unidades hospitalares do país, era comum que presidentes da República, ministros e personalidades artísticas se internassem ou fizessem exames nas moderníssimas instalações do hospital. De lá pra cá, muita coisa mudou.

Os presidentes e ministros preferem o Albert Einstein, em São Paulo, as personalidades sumiram quase todas, exceção para Dercy Gonçalves, que até hoje tem tratamento especial por lá. Essa mudança de preferência não foi à toa. Com a criação do Instituto Nacional de Assistência e Previdência Social (INAMPS), no início da década de 1990, o HSE passou a ser administrado pelo governo estadual. Os problemas começavam. Em 1992, com o repasse de verbas extremamente prejudicado pelo governo Collor, com funcionários extremamente desmotivados pelos planos econômicos do mesmo presidente, devendo milhões a fornecedores hospitalares, o hospital chegou a ser interditado pelo Conselho de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (CREMERJ). Faltavam medicamentos, alimentos e material hospitalar. No mesmo ano, o hospital fechou as portas para emergências, exames de ambulatório e internação. O HSE corria risco de vida.

Ao ser devolvido para o governo federal, passou por uma faxina administrativa e tem tido sucessivos gestores, médicos da instituição sempre, tentando reerguê-lo. “Hoje, o Servidores conta com uma Comissão de Planejamento e Informação, que pretende impor uma administração mais racional, capaz de empreender uma administração mais racional e transparente, mapeando metas e potencialidades de cada um dos nossos serviços.” – explica Geiza Araújo, assessora de imprensa da instituição. Alguns números do Hospital mostram seu tamanho e importância para a população de todo o estado. De acordo com a direção do HSE, chegam pessoas vindo de todas as cidades do Rio e, dependendo da complexidade do procedimento médico, de outros estados.

Basta, no entanto, cruzar os belos jardins da entrada durante uma manhã para se ver que ainda existe muito a melhorar para que volte a ser o centro de excelência de outrora. Como uma pessoa de sessenta anos, o HSE luta para não deixar a idade pesar e voltar à vitalidade de seus vinte e poucos anos, perdida durante a meia idade. Durante as próximas duas semanas, o Flâneur Carioca fará uma série especial sobre o Hospital, com histórias e personagens do Servidores e da luta diária que é enfrentar filas desde o início da madrugada para ser atendido no sistema público de saúde do Rio de Janeiro.


2006 em números para o HSE

Consultas ambulatoriais 301.737
Cirurgias 14.497
 

O bigode e as escrituras Setembro 28, 2007

Arquivado em: Guilherme Amado, Personagem, Social — flaneurcarioca @ 10:41 pm

Quem passar à noite entre a Rua da Quitanda e a Avenida Rio Branco vai se impressionar com o pouco mais de um metro e meio de um homem capaz de carregar durante toda a madrugada até cinco toneladas (seu recorde até hoje) de papel branco e papelão recolhidos naquele trecho. Carregando seu burrinho sem rabo, nome que os catadores dão aos carrinhos em que empilham quilos e quilos de papel para levar ao depósito em outro ponto do Centro, Seu Pedro esquece seus 60 anos e ziguezagueia pela escuridão da noite da cidade. “Todo mundo me conhece aqui. Ficam a noite toda chamando o velho pra cá, o velho pra lá”, diz Seu Pedro, com um sorriso de pouquíssimos dentes.


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Prestes a embarcar rumo à Paciência

Pedro Monteiro de Moraes nasceu em Ferreiros, cidade a 109 quilômetros de Recife, entre o litoral e a Zona da Mata nordestina. Trabalha desde os sete anos no canavial, mas conseguiu levar a escola até a 5ª série. Daí para frente, ficou difícil e nunca mais conseguiu estudar. A leitura, no entanto, está em dia há 12 anos, quando se tornou evangélico e passou a ler com grande afinco as escrituras sagradas. Três anos antes de começar a freqüentar os cultos, Seu Pedro tinha começado a trabalhar nas ruas do Centro catando papel. Era pedreiro desde 1968, quando chegou ao Rio, com 19 anos. De lá até se tornar catador, foi e voltou de Ferreiros algumas vezes. Quando estava desempregado por aqui, pegava o ônibus, enfrentava 48 horas de estrada e voltava para o canavial. Passava um tempo por lá e retornava, insistindo em tentar uma vida melhor no Rio. Numa dessas idas, conheceu dona Vilma, paraibana de Orvalho, sua mulher há mais de 30 anos. Tiveram cinco filhos, quatro meninas e um menino, pouco menos que os sete dos pais de Seu Pedro.

Quase tão longo quanto o casamento é o tempo que Seu Pedro trabalha como catador. Há 15 anos, um quarto de seus 60, ele foi demitido de uma construtora em que trabalhava. Estava começando a desenvolver uma doença que o acompanha desde então, a úlcera varicosa, que deixa os pés extremamente inchados e pode causar feridas enormes. A única forma de tratar a doença é, além de usar a medicação indicada, deixar as pernas levantadas permanentemente. Talvez seja por isso que já convive há tanto tempo com a doença. A construtora alegou na época que ele não conseguiria calçar sapatos, condição que consideravam básica para que alguém trabalhasse como pedreiro. Foi aí que um conhecido, bem mais velho que ele, catador de papel entre a Rua da Quitanda e a Avenida Rio Branco, o levou para trabalhar no Centro. Quando o amigo morreu, Seu Pedro assumiu seu ponto e lá trabalha até hoje. “Deus me apontou uma saída”, conta, animado.

Seu Pedro sempre foi uma pessoa muita religiosa. Católico desde criança, se tornou evangélico por sentir falta de ler a Bíblia, prática pouco incentivada no catolicismo. Sua primeira Igreja foi a Assembléia de Deus, mas saiu de lá há três anos quando exigiram que ele raspasse o bigode. “Se Deus me deu bigode, com certeza é porque ele me queria assim.” Foi para a “Deus é amor”, onde está até hoje, lendo as escrituras. E com o bigode intacto.

Vendo a rotina de Seu Pedro, parece faltar tempo para estudar a Bíblia. Chega todo dia às quatro, cinco da tarde no Centro. Vai até o depósito de papel, na Rua dos Inválidos, 96, troca de roupa, e se dirige ao ponto em que trabalha. Começa a recolher o papel e, até duas da manhã, já catou tudo que podia. Seu Pedro sempre é o primeiro a chegar na fila do depósito, que só abre às cinco e meia. Aproveita o vazio da rua, pega alguns papelões, monta uma barraquinha e dorme até a chegada de Seu Armindo, o dono do depósito. Depois de receber o dinheiro pelo que juntou durante toda a noite, Seu Pedro se veste, toma um café preto em algum bar do Centro e vai para a Central do Brasil. Já são quase sete horas quando embarca para Paciência, na Zona Oeste, onde mora. Chega em casa um pouco antes de nove, toma mais um café, e dorme o sono dos justos, que será interrompido por volta de meio-dia, quando acorda.

Quando Seu Pedro está pegando no sono após praticamente não dormir a noite toda, Seu Armindo, o dono do depósito, que dormiu a noite toda, está apenas começando seu dia de trabalho. Aos 42 anos, chegou ao Brasil com doze, vindo de Portugal, onde nasceu. Na falta de perspectivas, se tornou catador de papel. Conseguiu juntar dinheiro e comprou seu depósito anos atrás. Hoje, não cata mais, apenas compra a peso todo o papelão e papel branco recolhidos pelos catadores. Oferece, além do carrinho, um banheiro com chuveiro para que eles possam tomar banho antes de voltar para casa. Quando todos os catadores já venderam o que tinham, Seu Armindo vai para a Praia do Caju. É a sua vez de vender o que comprou. Sem informar por quanto vende as toneladas compradas, admite por quanto compra. Por um quilo de papel branco, paga 32 centavos. Já pelo quilo do papelão, paga um pouco mais, 35 centavos. De grão em grão, trinta anos depois de ter chegado, Seu Armindo conseguirá este ano mandar as duas filhas para Portugal. Vão estudar.

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O depósito de seu Armindo – rua dos Inválidos, 96

Seu Pedro pensa parecido. Quando perguntado se aconselharia um parente de Pernambuco a vir para o Rio de Janeiro tentar a vida, como ele fez há quase quarenta anos, fala em alto e bom som: “Cai fora que é roubada.” Seu sonho e o de Dona Vilma é voltar para Ferreiros, mas não querem ir sem um pé-de-meia. Está trabalhando para isso e, tem certeza, um dia consegue voltar. Para ele, o Brasil não tem jeito e Ferreiros, sendo uma cidade pequena, pelo menos é mais tranqüilo. “Dá pra conviver melhor com as dificuldades”. Ano passado, ano de eleição, Seu Pedro e vários catadores de papel do Centro foram convidados para viajar a Brasília e visitar o Palácio do Planalto, onde seriam recebidos pelo presidente Lula. Seu Pedro não quis ir. “Ele ia fazer alguma coisa pra melhorar minha vida?”. Há doze anos que não vota e nem se lembra dos nomes dos candidatos a presidente da última eleição em que votou, em 1994. Prefere se preocupar com assuntos que julga realmente interferirem em sua vida. Como as escrituras e seu bigode.

 

Só nós não mudamos Setembro 14, 2007

Arquivado em: Guilherme Amado, História, Política — flaneurcarioca @ 5:40 pm

Por Guilherme Amado

Sobre mim, já pisaram os mais variados pés. Pés importantíssimos, diga-se de passagem. Pés cheios de patriotismo, de esperança de mudanças. Pés fardados e fadados – não é porque sou uma pedra portuguesa que não posso trocadilhar. Por cima de mim, já passaram futuros presidentes. Vários deles também já me evitaram. Pelos meus cálculos, lá se vão não sei quantos anos, passaram bilhões de pés. Hoje em dia, só me tocam de leve, num passo apressado que mal dá pra sentir a pisada. Correm pra tudo que é lado e nem se preocupam com o que acontece no chão em que pisam. Antigamente, não. Isso aqui era uma animação só. Tinha passeata, gente empolgada, empolada. Tinha sangue. Tinha folia. Bom, hoje também tem folia. Graças a Deus. Se não, como disse um pé que pisava muito por aqui, ninguém agüenta esse rojão.

Sabe, ser pedra portuguesa da Cinelândia é uma tarefa inglória. Digo inglória porque não é todo dia que somos palco para espetáculos. Na verdade, passamos quase o ano todo nessa mesmice, pés pra lá, pés pra cá, num vai-e-vem entediante. Estava comentando dia desses com uma das minhas quatro vizinhas que o tédio tem aumentado de um tempo pra cá. Pudera. Tirando fevereiro e março, que a coisa ferve com o Cordão da Bola Preta, no resto do ano é só chatice. Mas não foi sempre assim, como lembrou a vizinha da frente durante nosso papo. Coisa de quinze, vinte anos atrás, se eu não me engano, foi uma das últimas vezes que isso aqui pegou fogo. Eram uns garotos, sempre eles, que me encheram com respingos de tinta verde e tinta amarela. Pediam a cabeça de um presidente. Mas ali já dava pra ver que a coisa tava mudando. Muitas de nós receberam, além dos respingos de tinta, respingos de cerveja. A rebeldia tinha virado festa. Tirar o presidente era, para muitos deles, uma grande brincadeira. Achei aquilo estranho, mas como sou uma pedra portuguesa progressista, relevei. Algumas amigas, mais caxias, ficaram indignadas. Estão profanando um chão em que já pisaram cavalos getulistas, a portuguesinha que fica perto do obelisco gritou na época.

Na verdade, cá entre nós, essas pedras estão ficando velhas. Reclamonas. Pra mim, são tempos diferentes. As coisas mudam. É claro que não há a mesma animação de outros tempos – daí que vem o tédio, como eu disse –, mas não dá pra achar que, só porque nós somos as mesmas, os pés que pisam na gente também vão ser. As pedras portuguesas não mudam, já os pés que as pisam, sim, já dizia uma sábia que foi removida na última reforma da frente do Municipal. Essa pedra, aliás, era rica de histórias. Ela era uma dessas que estava por aqui desde 1905, no tempo do Pereira Passos, quando as primeiras de nós foram trazidas, na construção da Avenida Rio Branco, que, dizia ela, se chamava Avenida Central. Estava aqui quando o Getúlio chegou, foi pisada durante os primeiros grandes desfiles da independência, durante o tal do Estado Novo. Lembrava que era impressionante o carisma do gaúcho. Anos depois, a pedra sábia contava, lágrimas e mais lágrimas foram derrubadas sobre ela, quando ele se matou.

Por falar em derrubada, eu testemunhei uma outra derrubada assustadora, não de lágrimas, mas de um presidente. Não presenciei, é claro, mas ouvi. E também sofri com o que veio depois. Mas foi, talvez, a época mais empolgante. Para nós, pedras portuguesas, é bom dizer. O primeiro grande ato cívico da minha lusitana vida foi quando cem mil pessoas se reuniram para exigir, entre outras coisas, que os presos políticos do regime militar fossem soltos. Aquele dia foi inesquecível. O povo cantava, gritava, vibrava com a possibilidade de acabar com a terrível ditadura que já há quatro anos amedrontava até as mais conservadoras das pedras. Liberdade, liberdade, todas gritávamos em coro. Naquele dia, a polícia não veio com tudo. Tinha ido alguns dias antes, quando, lá pros lados do restaurante Calabouço, um estudante foi morto. As pedras portuguesas do lugar ficaram tão traumatizadas que preferiram se calar. Não viram, não ouviram, não iam ser burras de falar. A mordaça daquela época era tamanha que até nós tínhamos medo.

O medo demorou a passar. Só lá pra meados dos anos 80 a coisa começou a mudar. E aí foi lindo, como ouvi o Caetano dizer um dia que pisou bem em cima de mim. Segundo as nossas contas, foram bem um milhão de pés, ou quinhentas mil pessoas, para ser mais específica. Queriam votar, queriam ter o direito de mandar em seus próprios destinos. Nós, pedras portuguesas, apoiávamos as Diretas Já sem titubear. Estávamos cansadas de tanto sangue brigando com o nosso preto e branco. Durante os comícios, vinha muita gente boa pra cá. Ah, eram tempos felizes. Acho que tínhamos mais esperanças. Bom, talvez estivéssemos iludidas. Mas, se era ilusão, era uma ilusão boa, isso era.

De lá pra cá, muita coisa mudou. Vieram aqueles caras pintadas, como eu disse e, depois, a coisa diminuiu bastante. Uns dois anos atrás, umas pessoas queriam tirar o presidente que pareceu um dia com um sapo barbudo. Não conseguiram colocar nem 600 pés, 300 pessoas. Isso aqui também fica cheio volta e meia de professores, policiais, médicos e vários outros profissionais que vêm reivindicar. Reivindicam tudo e, na maioria das vezes, não conseguem nada. Quem também não consegue nada, pelo menos a curto prazo, são as pessoas que nos enchem de lágrimas quando vêm pedir paz. Dessa vez, as lágrimas não são pelo presidente morto, mas pelos familiares, pelos amigos, pelos vizinhos mortos no asfalto selvagem, como disse o Nelson Rodrigues uma vez. Mas eu acho que hoje em dia essas pessoas são bem menos ouvidas aqui. Uma prima minha que é pedra portuguesa lá em Copacabana disse que, quando as pessoas se juntam por lá para pedir paz, menos violência, e esse monte de coisa que todos queremos, enche de câmera de televisão e de personalidade. Por aqui, acho que mal seriam ouvidos. Bom, talvez seja pessimismo meu. Mas nada que se compare a 1968, 1984, 1992. É, meus amigos, até para nós, pedras portuguesas, é estranho envelhecer e acompanhar tantas transformações. A Cinelândia mudou. O Rio mudou. O Brasil mudou. Parece que só nós, pedras portuguesas, como dizia a pedra sábia, não mudamos.

 

Podcast Flâneur Carioca – Restauração da Antiga Sé Setembro 14, 2007

Arquivado em: Cultura, Glaucia Marinho, Guilherme Amado, História, podcast — flaneurcarioca @ 5:39 pm

Maquete da Antiga Sé restaurada
Assim ficará a fachada da Antiga Sé após a restauração

Clique aqui para ouvir ou baixar o podcast do Flâneur Carioca, em que Daisy Ketzer, uma das organizadoras do evento, fala sobre a restauração da Antiga Sé, obra que será entregue dia 8 de março do ano que vem, dando início às comemorações da chegada da Família Real.

 

Podcast Flâneur Carioca – Dom João pelas ruas do Centro Setembro 14, 2007

Arquivado em: Glaucia Marinho, Guilherme Amado, História, podcast — flaneurcarioca @ 3:28 am

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Daisy Ketzer: “Dom João foi um estrategista”

Clique aqui para ouvir o podcast especial Dom João pelas ruas do Centro, com uma entrevista exclusiva com o gordo monarca, seguida por uma defesa apaixonadada de Dom João pela professora Daisy Ketzer, da Universidade Estácio de Sá.